PF aponta governador de Roraima como chefe operacional de esquema de fraudes em licitações, diz investigação

A Polícia Federal (PF) aponta o governador de Roraima, Edilson Damião, como chefe operacional de um suposto esquema investigado por fraudes em licitações e lavagem de dinheiro. As informações constam em relatório produzido no âmbito de inquérito que apura irregularidades na Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinf).

As investigações tiveram início em janeiro de 2026, quando a PF prendeu, em Boa Vista, o empresário Clóvis Braz Pedra, a assistente administrativa Ana Clara Araújo Cruz de Oliveira e o capitão da Polícia Militar Marcos Holanda Farias. Eles são suspeitos de envolvimento em crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Procurado, o Governo do Estado informou, em nota, que “não possui conhecimento sobre a suposta investigação” e que não houve comunicação oficial sobre o caso.

Após as prisões, a PF apreendeu celulares dos investigados. A análise do material levou à identificação de um possível esquema de fraudes em licitações na Seinf, com participação de integrantes do alto escalão do governo estadual. À época dos fatos, Edilson Damião ocupava os cargos de secretário da pasta e vice-governador.

Segundo o relatório, o então secretário teria utilizado a função para viabilizar o esquema por diferentes meios, como o direcionamento de licitações para empresas específicas, entre elas a C B Pedra Serviços e Construções Ltda, de propriedade de Clóvis Braz. A investigação também aponta a realização de licitações presenciais em contratos de grande valor, em detrimento do pregão eletrônico, o que teria restringido a concorrência.

Outro ponto citado é a suposta antecipação de resultados de certames. De acordo com a PF, o empresário teria recebido previamente uma planilha com emendas parlamentares e nomes de possíveis vencedores de licitações, antes mesmo da publicação dos editais.

O documento também menciona uma relação próxima entre Edilson Damião e Clóvis Braz, com encontros frequentes e negociações diretas. Em um dos áudios analisados, o empresário se refere à empresa como “nossa”, ao cobrar pagamentos, o que, segundo os investigadores, pode indicar benefício mútuo.

Ainda conforme a apuração, enquanto Edilson atuaria no braço operacional do esquema, o ex-chefe da Casa Civil, Disney Barreto Mesquita, seria responsável pela parte financeira, incluindo a lavagem de dinheiro por meio de uma rede de empresas. Essa estrutura envolveria postos de combustíveis, hotéis e outros negócios utilizados para ocultar recursos desviados da Seinf.

A defesa de Clóvis Braz afirmou que o caso ainda não foi submetido à apreciação judicial e classificou as acusações como “meras ilações desprovidas de suporte probatório concreto”, informando que irá se manifestar apenas nos autos. Já Disney Mesquita declarou que “nunca teve e não possui qualquer contrato com o Governo”, negando envolvimento em irregularidades.

A investigação também aponta que a relação entre Edilson Damião e o empresário era de caráter pessoal, com comunicação frequente por mensagens consideradas “crípticas”, seguidas por ligações telefônicas sem registro posterior.

Clóvis Braz é proprietário da C B Pedra Serviços e Construções Ltda, conhecida como Rodoplacas, empresa que mantém contratos com a Seinf. Segundo a PF, a secretaria é a principal fonte de faturamento da companhia, que recebeu cerca de R$ 162,96 milhões entre 2021 e 2025.

Em um dos episódios citados, o então secretário teria prometido uma licitação ao empresário, que acabou sendo vencida por outra empresa. De acordo com a investigação, a vencedora também seria controlada de forma oculta por Clóvis Braz.

Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal solicitou o envio do caso ao Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR), em razão do foro por prerrogativa de função do então vice-governador. O processo passou a tramitar sob supervisão da Corte.

Os autos foram encaminhados ao Ministério Público de Roraima (MPRR), que deverá decidir, ao final das investigações, se apresenta denúncia contra os envolvidos. Caso isso ocorra, caberá ao TJRR aceitar ou rejeitar a acusação.

Procurada, a Polícia Federal informou que não irá se manifestar sobre o caso.

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