Apesar do anúncio de investimentos na área da Educação pelo Governo de Roraima, estudantes do município de Uiramutã precisaram contar com o apoio de lideranças indígenas para garantir um espaço improvisado onde pudessem continuar os estudos.
Com obras abandonadas de escolas estaduais no Norte de Roraima, moradores de comunidades foram obrigados a construir, por conta própria, unidades de ensino para atender crianças e adolescentes da rede pública.
A precariedade das escolas sob responsabilidade do Governo Estadual também se repete em municípios do Norte do Estado, como Normandia e Uiramutã, onde obras anunciadas não foram concluídas e estruturas permanecem inacabadas ou em condições inadequadas de uso.
Em janeiro de 2024, o governador Antonio Denarium, do Progressistas, anunciou um investimento de R$ 107 milhões destinados à reforma de aproximadamente 54 escolas em todo o Estado. Na ocasião, o pacote de obras incluía 16 unidades nas áreas urbana e rural de Boa Vista, outras 16 escolas em municípios do interior e 22 escolas indígenas. Embora os recursos tenham sido anunciados, denúncias sobre a precariedade das unidades revelaram atrasos na entrega das reformas e a paralisação de obras.
O Roraima em Tempo produziu uma série de reportagens que mostram a situação das escolas estaduais tanto na capital quanto nos municípios do interior. Acompanhe.
Embaixo de lonas, espaços improvisados e promessas: alunos da rede estadual esperam há anos pela entrega de reformas de escolas na capital.
Normandia
Em 2024, o governador autorizou a emissão de ordem de serviço para obras de reforma em quatro escolas estaduais no município de Normandia. Os investimentos ultrapassaram R$ 13 milhões, oriundos do Tesouro Estadual.
Entre as unidades contempladas estava a Escola Estadual Índio Macuxi, localizada na Comunidade Napoleão. No entanto, a escola já havia passado por um processo de revitalização em 2022.
No dia 29 de janeiro, o Roraima em Tempo apurou que a reforma da escola passou a ser alvo de investigação do Ministério Público de Roraima. Conforme procedimento administrativo instaurado e assinado em 27 de janeiro de 2026, o MPRR apura possíveis irregularidades nas obras de reforma e revitalização da unidade de ensino.
Uiramutã
Em junho de 2023, o Ministério Público Federal solicitou à Justiça que o Estado apresentasse, no prazo de 60 dias, um cronograma de contratação e execução das obras de reforma da Escola Estadual Indígena Ko’ko Isabel, no município de Uiramutã.
Antes disso, a Justiça já havia condenado o Estado ao pagamento de multa no valor de R$ 100 mil, além do bloqueio de contas, por não promover a recuperação, adaptação ou reconstrução da unidade escolar. Segundo o MPF, o objetivo da medida era garantir a inauguração da escola ainda em 2024.
Denúncias de precariedade
Moradores e lideranças indígenas também denunciaram as condições precárias das escolas na região. Em abril de 2025, a Escola Estadual Indígena da comunidade de São Matheus, em Uiramutã, precisou passar por uma intervenção direta da própria comunidade após denúncias apontarem que as obras de ampliação da unidade estavam paralisadas havia mais de dois meses.
O líder comunitário Kennedy Lima cobrou a retomada imediata dos trabalhos. “Nós temos uma construção contemplada que começou a ser construída e não saiu do alicerce. O que estamos cobrando aqui é o direito de um aluno indígena estudar em quatro paredes, na qual ele é merecedor de estudar”, afirmou.
Situação semelhante ocorreu em maio de 2025, quando moradores da comunidade indígena de Sauparú, também em Uiramutã, decidiram construir, com recursos próprios e esforço coletivo, a sede da Escola Estadual Indígena Santa Rosa. A iniciativa foi tomada após o Governo não dar início às obras previstas.
De acordo com as denúncias, os moradores classificaram o cenário como abandono total por parte dos órgãos públicos. Diante da espera prolongada, a comunidade resolveu agir por conta própria. A liderança local destacou que a nova escola começou a ser construída devido à precariedade da antiga sede, cuja infraestrutura oferecia riscos à segurança dos estudantes.
O que diz o Governo
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Educação do Estado de Roraima para questionar sobre as obras de reforma anunciadas pelo governador Antonio Denarium em 2024. Entre os questionamentos, a equipe de jornalismo perguntou os motivos pelos quais as reformas não foram concluídas dentro do prazo prometido. Até o fechamento desta série de reportagens, o Governo não havia se manifestado.




